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Quando li a notícia sobre a Dona Albertina Madeira, de 100 anos, que dirige o Jornal Ecos da Serra e ainda faz iguarias da culinária portuguesa, de imediato quis conhecê-la pessoalmente para saber de seus conselhos e de sua receita para uma vida longeva e ativa.

Dirigi-me, então, à Freguesia de Alte, no concelho de Loulé, no Algarve, aquela região portuguesa famosa por suas praias maravilhosas, seu clima e agora também pela grande personalidade local: a Dona Albertina Madeira, minha colega da área do jornalismo. Acompanhou-me na missão minha amiga Marisa Cruz, também Repórter 60+ de Portugal.

Dona Albertina de Sales de Paula Madeira, que fez 100 anos no dia 29 de janeiro de 2023, recebeu-nos com um grande sorriso em sua casa assobradada no centro histórico da aldeia, onde funciona também o Jornal Ecos da Serra. Fundado por um grupo de amigos de Alte, há mais de 50 anos, este jornal tem a sua história ancorada em fatos que marcaram Portugal e todos os seus cidadãos. Na entrevista, Dona Albertina conta um pouco sobre esta bela história e sobre o propósito inicial do Ecos da Serra que alcança leitores em todo o país e fora dele.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Jornalismo com missão humanitária

Acomodadas em uma confortável sala repleta de fotos de família e imagens religiosas, apresentei-me e iniciamos uma longa, descontraída e muito doce conversa, cujo resumo reprroduzo para que você conheça a Dona Albertina, seu trabalho, seu dinamismo e a graça e doçura com que leva a sua vida.

Silvia – Conte-nos um pouquinho sobre a vida da senhora e como a senhora iniciou o trabalho ligado ao jornalismo, no jornal Ecos da Serra

Dona Albertina – Poxa, foi acho cinquenta e tal anos em que a minha irmã com um grupo de amigos lembrou-se de fazer-lhe um jornal, porque o jornal foi assim que começou: com um grupo de amigos.

Há cinquenta anos não havia televisão, não havia o telefone, também não havia nada o que fazer. O que a gente fazia aos domingos? Aos domingos juntava-nos a passear, ver as belezas da nossa terra, a fonte grande e a pequena, o vigário (uma cascata loal) a freguesia e sua vista muito bonita para a serra, e à noite juntávamos na casa de uma pessoa amiga. Jogávamos geralmente o loto, mas depois lembrámos: a nossa terra precisa de tanta coisa, e se a gente trabalhasse para a nossa terra, para ajudar nalguma coisa que ela necessitasse? Então a minha irmã com esse grupinho, onde eu estava também, nos juntamos e fizemos o jornal.

Esse jornal era então para os militares que estavam na guerra em Ultramar. Mandámos às vezes no Natal uma garrafinha pequenina de água ardente e um balaio de figos e amêndoas. Eles ficavam muito contentes e nos escreviam muitas cartas a agradecer e dizer o que eles passavam lá.

Depois da guerra passamos a enviar o jornal para o estrangeiro, para os emigrantes. Até hoje tem sido assim. E então arranjámos muito dinheiro. Para reconstruir o telhado da igreja que estava muito arruinado, o assoalho da igreja que também estava esburacado, uma ermida que há aqui perto. Os quadros de São Luís já nem se apercebia nada, mandamos reconstruir. Ajudámos na piscina que é na Fonte Grande, e fizemos muitas outras coisas. Por intermédio do jornal, a gente pedia e as pessoas mandavam qualquer contribuição para estas obras que a terra e a igreja também precisava.

Faziamos récitas. São teatros. Fazíamos, assim uns bonzinhos. Olhe, uma vez fizemos um teatro e levámos essa peça a Loulé, a sede do conselho. Estavam uns senhores atrás de nós e ouvimos-lhes a dizer: mas eles trabalham tão bem que parecem já artistas de Lisboa.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Empreender em qualquer idade

Silvia – Que história linda, Dona Albertina! O exemplo da Dona Maria de Lourdes, sua irmã e o da senhora significa muito pra nós, os sêniores do Brasil e de Portugal, para vermos que é possível empreender em qualquer idade.

Dona Albertina – Estou também a fazer uma blusa de tricô para o neto da minha afilhada. Fiz um casaco grande. Graças a Deus tenho essa possibilidade, porque há pessoas que já estão com as mãos muito entanguidas e não podem trabalhar, andar muito bem. Todos os dias dou graças a Deus. Posso fazer comida, posso limpar, varrer, é claro não com agilidade do meus 20 anos.

Silvia – Parabéns, Dona Albertina! Gostava que a senhora nos falasse sobre o seu trabalho lá no jornal Ecos da Serra. A senhora também faz a revisão dos textos?

Dona Albertina – Gosto de poder sempre ajudar. Eu, de outras vezes encontro uma coisa que não devia ter sido posto. É só isso.

Silvia – Isso é muito importante, pois é bom ter alguém que nos mostre os erros, pois o texto pode estar bom para nós que escrevemos mas não está entendível para quem o lê.

Durante os 50 anos do jornal é chegada a internet. Como foi essa passagem para a senhora? A Dona Maria de Lourdes, falecida em 2012, chegou a pegar essa era da tecnologia no trabalho?

Dona Albertina – Sim. Ela aprendeu. Sabia escrever à máquina eu não aprendi . Ela gostava muito de aprender. Eu sou uma pessoa muito descuidada. Não percebo nada desta tecnologia moderna. Os meninos fazem esse trabalho todo. Estou arrependida de não ter aprendido.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Dona Albertina e sua afilhada Dona Maria Antónia

Amigos e religiosidade para uma vida longa

Silvia – Durante a sua vida ao lado dos familiares, a senhora tem muitos amigos? Uma vez aprendi que podemos considerar nossos amigos como uma Família Social. Os seus amigos são importantes para a senhora?

Dona Albertina – É verdade! Tenho muitos amigos aqui. Toda a gente é minha amiga. Não tenho inimigos.

Silvia – A senhora vai na missa aqui em Alte? Fiquei feliz pois vi que a senhora tem uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil e minha madrinha pois me chamo Silvia Aparecida.

Dona Albertina – Vou na missa sim, mas agora vou fora daqui. Ganhei esta imagem de um parente que mora no Brasil.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Tenha uma vida calma!

Silvia – Algo que todos nós queremos saber da senhora é: qual a receita de vida que a senhora pode nos dar para que cheguemos aos 99 anos igual a Senhora?

Dona Albertina – Não ter muitas reações. Que seja saudável e não uma pessoa marafada.

Há uma expressão aqui no Algarve, que é marafada, significa muito aborrecida, zangada. Quer dizer que uma pessoa tem de ter uma vida mais calma para chegar assim como eu.

A pessoa deve ter uma vida mais calma sem muitas preocupações do trabalho. Ter uma vida tranquila.

Silvia – Como é a alimentação da Senhora? Sabemos que as pessoas longevas têm uma alimentação bem saudável. A senhora come de tudo? Com qual frequência a senhora come carne?

Dona Albertina – Uma alimentação muito simples, grãos, feijão, couve, uma galinha, peixe cozido ou porco de vez em quando. Como carne mais de uma vez por semana.

Silvia – Sobre a sua qualidade de vida a senhora falou sobre a sua alimentação, sobre os amigos, e quanto ao trabalho? A Senhora acha que o trabalho tem sido importante na vida da senhora?

Dona Albertina – O trabalho que tinha era ajudar no governo da casa. Nunca estive parada. Até me admira gente que se senta em frente da televisão podendo trabalhar.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Dona Albertina e seu licor de medronho

Parar é morrer!

Silvia – Nós estudamos que um segredo, ou um elemento-chave da longevidade saudável é ser ativo e fazer algo constantemente.

Dona Albertina – E com gosto! Uma coisa engraçada! Tempo atrás cai das escadas e parti o úmero e depois estive muito tempo sentada, sem fazer nada. Depois pensei assim: E se eu escrevesse no jornal sobre o que existia na minha rua, sobre as pessoas que existiam aqui na minha rua. Comecei a escrever e dizer sobre elas, sobre os seus ofícios. Depois lembrei-me de escrever o porquê é que esta rua tem este nome, e aquela tem outro nome. E agora tenho estado a escrever. Eu escrevo de uma maneira simples, como uma miúda da 4ª Classe.

Silvia – Dona Albertina gostei muito de ver as crônicas que está a escrever no jornal sobre as ruas e o porquê dos nomes. Nós estamos a aprender muito com a senhora. Agora eu gostava que a senhora enviasse um recado para nós brasileiros e portugueses que são os nossos leitores. O que a senhora poderia dizer para nos incentivar a termos uma vida ativa?

Dona Albertina – A vida está tão diferente. Ter sempre confiança em nosso Senhor e Nossa Senhora, e nunca desesperar. Continuar sempre para a frente e nunca parar.

Parar é morrer!

É difícil viver a vida como deve ser vivida! É preciso uma grande força de vontade e uma grande capacidade de inteligência para não ir nessa corrente má onde estamos envolvidos. Peço sempre a Deus paz em nossos corações.

Silvia – D. Albertina a senhora é um exemplo de Mulher em primeiro lugar e para todas nós mulheres de todas as idades. O brilho no olhar que a senhora tem vai ficar para sempre na minha memória e com muita gratidão.

É um exemplo de longevidade ativa, pois aos 99 anos escreve, dirige um jornal, verifica tudo e ainda colabora em duas colunas. Eu faço ideia do quanto todos os soldados da Guerra Ultramarina e todos os mais de 800 leitores são gratos à Senhora e ao Jornal Ecos da Serra.

D. Albertina, muito obrigada! Desejo muitas alegrias e felicidades para a senhora.

Dona Albertina – Fiquei muito grata de tê-las aqui. Gostei muito. São muito agradáveis.

PARAR É MORRER! Diz Dona Albertina de 99 anos, diretora do jornal de Alte

Uma taça de licor de Medronho, docinhos de figo e folhas de louro para as Repórteres 60+ Portugal.

Mal sabíamos o que nos aguardava ao final da entrevista. Dona Albertina levou-nos a uma outra sala onde nos serviu seu famoso, e delicioso, licor de medronho, acompanhado dos saborosos docinhos de figo que faz, inclusivamente para presentear as suas visitas.

Claro que pedi uma segunda taça para degustar, de verdade, este exclusivo e delicioso licor de Portugal.

O medronho é uma fruta típica da região mediterrânica e Europa Ocidental, muito encontrado no Alentejo e no Algarve.

Passamos a identificar os ingredientes desta iguaria, ao passo que Dona Albertina ia dizendo se estávamos certas, ou não. São vários e fazem do licor de medronho da Dona Albertina uma bebida exclusiva do Algarve.

Mostrou-nos, também, os seus trabalhos em tricô, todos feitos com perfeição e bom gosto. Observação! DONA ALBERTINA NÃO USA ÓCULOS!

As surpresas não tinham fim. Dona Albertina levou-nos ao seu belo pomar e horta nosfundos de sua casa, alcançável mediante a subida de várias escadas íngremes. Observação! A BRAVA SENHORA SUBIU TODAS AS ESCADAS SEM QUALQUER TIPO DE AJUDA.

Vimos as suas belas árvores de laranja, limão, medronho, figos, nesperas, pera abacate e muitas especiarias. Fez questão de colher galhos de louro para nós duas.

Fomos embora muito agradecidas com os nossos presentinhos, com os nossos corações aquecidos e as nossas almas radiantes de tanta energia e carinho vindos de Dona Albertina Madeira.

Bem-haja!

 

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