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Como a Intencionalidade está a Transformar o Envelhecimento em Ativismo e Oportunidade

Há momentos em que o calendário nos oferece mais do que uma simples sucessão de palestras; oferece-nos um portal para o futuro. Foi precisamente essa a sensação que tive ao participar na terceira edição da Conferência Idade MAIOR, by Brandkey, realizada no emblemático Centro Cultural de Belém (CCB), em fevereiro, em Lisboa.

No coração de um debate que urge ser feito, o evento consolidou-se como o epicentro da reflexão sobre a economia da longevidade em Portugal, provando que envelhecer não é um declínio, mas a conquista de um novo território de possibilidades.

A minha gratidão e admiração começam pela mentora deste movimento: Mónica Chaves.

Como fundadora da consultoria Idade Maior HubConsulting Geração + 60, Mónica não apenas organizou uma conferência; ela desenhou um ecossistema de esperança e pragmatismo. A sua capacidade de reunir mentes brilhantes e curar temas tão pertinentes revela uma liderança visionária, focada em transformar a percepção social sobre o que significa longeviver. Mónica é, também, fundadora da Brandkey, agência de Ativação de Marca, na qual lançou projetos inovadores como o Fórum Criança e o All About Teens.

Uma Curadoria de Excelência: Onde o Conhecimento Encontra o Propósito

A organização da conferência Idade MAIOR foi, em todos os sentidos, impecável. Desde a logística à fluidez dos painéis, sentia-se o cuidado de quem sabe que a forma comunica tanto quanto o conteúdo.

Mas foi na escolha dos palestrantes que o evento atingiu o seu apogeu. A diversidade de perspetivas — da economia à psicologia, do marketing às políticas públicas — permitiu uma visão holística e profunda da longevidade e da economia da longevidade.

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Mónica Chaves

A Desconexão no Consumo e Comunicação

Mónica Chaves (CEO da Brandkey/Idade Maior) revelou dados impactantes: 59% do consumo doméstico é responsabilidade de pessoas com mais de 50 anos.

Contudo, as marcas continuam a ignorar este público ou a comunicar de forma estereotipada (focando-se apenas em doenças ou netos). O erro reside, em parte, na baixa média etária das agências de publicidade, que sofrem de “miopia estratégica” ao ignorar milhões de euros em potencial de consumo desta geração, que procura experiências, viagens e serviços premium.

Rumo ao Dividendo da Longevidade

Para que a extensão da vida seja um verdadeiro trunfo, a especialista defende que o foco deve recair em dois pilares inegociáveis: o healthspan (a preservação da vitalidade) e o wealthspan (a solidez financeira). Sem essa harmonia, a longevidade corre o risco de se tornar um fardo em vez de uma oportunidade. 

A Urgência de um Novo Roteiro

Com a perspetiva de que metade das crianças atuais chegará ao centenário, o modelo linear “educação-trabalho-reforma” tornou-se obsoleto. Mónica Chaves alerta para a necessidade premente de redesenhar o “Novo Mapa da Vida”, propondo percursos mais maleáveis que permitam intercalar aprendizagem, produtividade e descanso de forma sustentável.

As Vozes que Desenham o Futuro

A conferência foi brindada com nomes que são referências globais e nacionais, cada um trazendo uma peça vital para o puzzle da vida longa:

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Michael Clinton

Michael Clinton: O Manifesto “ROAR” e a Expansão da Vida

Michael Clinton, Founder and CEO of ROAR Forward, ex-presidente da Hearst Magazines e autor de sucesso, trouxe para o palco do CCB uma energia transformadora. A sua palestra não foi apenas teórica; foi um roteiro prático para o que ele chama de “Life Launch” (Lançamento de Vida).

O Conceito ROAR: Clinton explicou que a sigla (Reimagine, Own, Act, Re-assess) serve para incentivar as pessoas a “rugirem” contra a invisibilidade. Ele defendeu que, com o aumento da esperança de vida, a reforma tradicional é um conceito obsoleto.

Michael Clinton, abriu o evento com uma provocação: o limite dos 65 anos para a reforma é um erro arbitrário herdado do século XX. Num mundo onde vivemos mais e melhor,

Clinton defende que a reforma deve ser flexível e gradual. Países como Japão e Singapura já são exemplos ao bonificar empresas que recuperam trabalhadores seniores, reconhecendo que a experiência acumulada é um ativo economico indispensável.

A “Segunda Metade”

Clinton traz a ideia de que aos 50 ou 60 anos não estamos a chegar ao fim, mas sim a meio de uma jornada onde a experiência acumulada é o maior ativo para novos empreendimentos, carreiras ou propósitos sociais. Ele desafiou a audiência a abandonar a “mentalidade de declínio” e a abraçar a “mentalidade de crescimento”.

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Michael Clinton

Clinton abriu-nos os olhos para as oportunidades de negócio no turismo da longevidade.

Não estamos a falar de pacotes de repouso, mas de experiências de transformação: viagens de aprendizagem intergeracional e o chamado “nomadismo prateado”.

 

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Céline Abecassis Moedas

A intergeracionalidade: problemas e oportunidades

Céline Abecassis-Moedas, Pró-Reitora para a Inovação e Empreendorismo da Universidade Católica Portuguesa, é uma voz fundamental para a economia da longevidade em Portugal. Sua intervenção trouxe o rigor da gestão para o centro do debate. A sua palestra focou-se em como o mercado e as empresas estão, muitas vezes, “cegos” para a realidade demográfica.

Céline destacou que a longevidade deve ser um pilar da estratégia de inovação. Ela explicou que o consumidor senior atual é ativo, digital e exigente, e que as marcas que não adaptarem o seu design de serviços e comunicação para esta faixa etária estarão a perder o maior motor de crescimento económico das próximas décadas.

Talento Intergeracional

Defendeu com clareza que as empresas precisam de criar equipes que unam a agilidade dos jovens à sabedoria e resiliência dos mais velhos, combatendo o preconceito interno nas contratações e retenção de talento senior.

Inovação e “Silver Economy”

Céline destacou que a longevidade deve ser um pilar da estratégia de inovação. Ela explicou que o consumidor senior atual é ativo, digital e exigente, e que as marcas que não adaptarem o seu design de serviços e comunicação para esta faixa etária estarão a perder o maior motor de crescimento económico das próximas décadas.

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Lisa Edgar

A Miopia do Marketing

A intervenção de Lisa Edgar, CEO da Sage Blue, foi um dos momentos mais pragmáticos e “pés no chão” da Conferência Idade Maior.

Especialista em pesquisa de mercado e comportamento do consumidor maduro, Lisa trouxe dados que funcionaram como um choque de realidade para os empreendedores e gestores presentes no CCB.

Lisa confrontou a audiência com uma estatística desconcertante: embora a geração 50+ detenha a maior parte da riqueza global e do poder de compra disponível, as marcas continuam a canalizar cerca de 90% dos seus orçamentos publicitários para o público sub-50. Para Lisa, isto não é apenas um erro social, é uma falha estratégica grave que ignora o segmento mais resiliente da economia.

Ela defendeu que a publicidade precisa de parar de oscilar entre dois extremos que não representam a realidade, como, por exemplo:

  • O “Vovô Frágil”: A imagem da dependência e do declínio.
  • O “Super-Herói”: O sénior irrealista que corre maratonas e faz paraquedismo.
  • A Realidade: Lisa explicou que a maioria dos seniores vive no “meio”, procurando produtos que facilitem o seu dia a dia com dignidade, sem os fazer sentir “velhos” ou “excecionais”.

Um dos pontos altos foi a sua explicação de que a idade é um péssimo indicador de comportamento.

Lisa sugeriu que os negócios devem segmentar por fases de vida: um indivíduo de 65 anos pode estar a começar um novo negócio, a divorciar-se, a ser cuidador de um progenitor ou a viajar pelo mundo. O marketing deve focar-se na necessidade e na ambição, não na data de nascimento.

O Consumidor mais Difícil de Enganar

A palestrante alertou que o público 50+ é o mais sofisticado e crítico. Eles têm “detetores de mentira” muito apurados para o marketing condescendente. Eles procuram utilidade real e transparência. A lealdade deste público não se compra com descontos, mas sim com o respeito pela sua inteligência e trajetória.

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Laurinda Alves e Ana Clara Silva

A Madeira como Exemplo no Combate ao Idadismo

Ana Clara Silva, Diretora Regional para as Políticas Públicas Integradas e Longevidade, da Região Autónoma da Madeira.

Um dos momentos mais impactantes e territorialmente focados foi a intervenção de Ana Clara Silva, que trouxe a experiência da Região Autónoma da Madeira para o debate nacional.

Entrevistada para o podcast, ao vivo, por Laurinda Alves, Ana Clara Silva destacou como a Madeira está na vanguarda das políticas públicas integradas para a longevidade.

Ana Clara detalhou como a Madeira tem implementado estratégias ativas para combater o isolamento e o idadismo. Ela destacou que a região não olha para os idosos como “utentes”, mas como cidadãos de pleno direito que devem continuar integrados no pulsar da comunidade.

Estratégias Anti-Idadismo

A palestrante explicou projetos inovadores que promovem o envelhecimento ativo através da cultura, do desporto e da aprendizagem ao longo da vida.

A sua abordagem sublinhou que combater o idadismo na Madeira passa por dar voz e visibilidade aos seniores, garantindo que o seu contributo histórico e atual seja valorizado tanto pelas camadas mais jovens como pelas instituições públicas.

Território Amigo da Longevidade

Ana Clara reforçou que a geografia da ilha, embora desafiante, tem servido de laboratório para criar soluções de proximidade que podem servir de inspiração para o continente, focando-se numa transição para um futuro onde a idade nunca seja um fator de exclusão.

CONFERÊNCIA IDADE MAIOR - A Nova Rota da Longevidade

Mafalda Honório

Longevidade: do desafio demográfico à oportunidade estratégica

A intervenção de Mafalda Honório, Diretora de Longevity Marketing da Fidelidade Seguradora, trouxe a visão de uma das maiores instituições de Portugal para o palco do CCB.

A sua fala foi um exercício de humanização do setor segurador, posicionando a empresa não apenas como uma pagadora de indemnizações, mas como um parceiro ativo na gestão da vida longa.

A Tecnologia como Ferramenta de Autonomia

Mafalda defendeu que a tecnologia não deve ser um “muro” que isola os mais velhos, mas sim uma “ponte”. Na visão da Fidelidade, as ferramentas digitais (como a teleassistência e apps de saúde) servem para que o senior possa manter a sua independência e continuar a viver na sua própria casa com segurança por muito mais tempo.

Como porta-voz de uma seguradora, Mafalda deu especial ênfase à segurança digital. Ela explicou que a Fidelidade tem a responsabilidade de educar os seus clientes seniores para utilizarem o mundo digital sem medos, prevenindo fraudes e garantindo que saibam gerir o seu património e as suas coberturas de saúde com confiança.

Combate ao Idadismo e Isolamento

Por fim, sublinhou que o papel social de uma grande empresa como a Fidelidade passa por combater o isolamento. Através do seu vasto ecossistema de parceiros, a seguradora procura integrar o senior na comunidade, garantindo que ele seja visto como um cidadão ativo e com valor, e não apenas como um “número” estatístico

Longevidade Intencional: O Meu Compromisso

Como alguém que respira e estuda a Longevidade Intencional, a Conferência Idade Maior foi um bálsamo.

Frequentemente, o envelhecimento é tratado como algo que “nos acontece”. No entanto, o que este evento defende — e o que eu pessoalmente acredito — é que podemos e devemos ser os arquitetos do nosso próprio envelhecimento.

E para construir um futuro longevo e saudável requer uma mudança sistémica. Precisamos de cidades mais amigáveis para todas as idades, de empresas que valorizem a experiência intergeracional e de sistemas de saúde focados na prevenção e na funcionalidade, não apenas na doença.

A longevidade intencional pressupõe escolhas: escolha de propósito, de saúde, de aprendizagem contínua e, sobretudo, a escolha de não aceitar os rótulos que o idadismo nos tenta impor. Estar presente, rodeado de pessoas que partilham esta visão, reforçou a minha determinação em continuar a empreender e a colaborar nesta área.

O Valor Estratégico para o Empreendedorismo

Para quem empreende na Economia da Longevidade (ou Silver Economy), este evento é mais do que recomendável: é essencial. Vivemos uma mudança demográfica sem precedentes. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, o que nos confere a responsabilidade — e a oportunidade — de sermos líderes na criação de soluções para este público.

A conferência deixou claro que o mercado da longevidade não se resume a cuidados de saúde ou instituições de longa permanência (lares). Ele abrange o turismo, a moda, a tecnologia, a educação e o lazer.

O empreendedor que ignora a “geração de prata” está a ignorar o segmento com maior poder de compra e maior disponibilidade de tempo.

A Idade Maior forneceu as ferramentas, os dados e, mais importante, o networking necessário para transformar estas oportunidades em negócios de impacto.

 

Doutoras Stella Bettencourt da Câmara; Susana Schmitt; Joana Aroso e Silvia Triboni

Um Legado que se Constrói Agora

A 3.ª Conferência Idade Maior, realizada no CCB em Lisboa (2026), serviu como um manifesto contra o idadismo e um convite para reescrever o “roteiro da vida adulta”

Ao encerrar esta terceira edição, fica a certeza de que a Idade Maior é hoje uma marca de prestígio e um selo de qualidade no debate nacional.

Mónica Chaves e a sua equipa estão de parabéns por elevarem o nível de exigência e por nos proporcionarem um fórum onde a ciência e a humanidade caminham de mãos dadas.

Saio deste evento mais convicta do que nunca de que o melhor ainda está por vir.

A longevidade não é um problema a ser resolvido, é uma vida a ser vivida em pleno. Que venha a próxima edição, para que possamos continuar a desenhar, juntos, este Portugal mais sábio, mais justo e, verdadeiramente, longevo.

Para quem não pôde estar presente, recomendo vivamente a consulta do site oficial idademaior.pt, onde o espírito desta revolução continua vivo.

O futuro é de quem se prepara para ele, e a idade… bem, a idade é apenas o cenário onde a nossa melhor história ainda pode ser escrita.

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